terça-feira, 14 de novembro de 2017

Os Xokos a ultima tribo de índios de Sergipe


Os Xokos a ultima tribo de índios de Sergipe

Os Xokos são um povo indígena que se utilizam da língua portuguesa originalmente, sendo atualmente a única tribo indígena existente em Sergipe.


Pajé Raimundo Bezerra Lima
in memoria




LUTA DO POVO XOKÓ

Ao longo desses anos o povo indígena Xokó vem construindo o mundo com maturidade organização e prazer. Mesmo assim, fomos chamados de índios atrasados e incapazes. Essa violência nos doeu muito e foram batalhas que valeram muitas vidas, povos inteiros foram destruídos. Grandes homens e mulheres morreram por acreditar em viver enquanto povo livre e com um jeito próprio de entender e viver a vida. Tudo isso nos tornou experiente, pois a dor machuca, mas também ensina.(Apolonio Xokó).
 Sergipe foi povoado por outros grupos indígenas, exemplo Água Azeda em São Cristóvão, Japaratuba, Pacatuba, Tomar do Geru, entre outros. Infelizmente 500 anos depois o único grupo que sobreviveu ao massacre (genocídio) foram os bravos, guerreiros, Xokó da Ilha de São Pedro, que continuam de pé até os dias atuais.
Durante o governo de Afonso F. de Castro, em 1672, foi fundada pelos capuchinhos franceses a Missão de São Pedro de Porto da Folha, que, segundo tradição oral, seria delimitada por seis marcos de pedra afixados pelos primeiros conquistadores, espanhóis e portugueses, em 1653 (FIGUEIREDO, 1981, p. 88). Tendo como principal missionário o Frei Anastácio, que permaneceu nessa redução por mais de seis anos, foi reconhecida por Vila de Traipu ou São Pedro de Porto da Folha. Uma das construções religiosas religiosa dos missionários capuchinhos franceses no Estado de Sergipe, temos a Igreja de São Pedro, construção final do século dezessete início século dezoito (XVII/XVIII) administrada pela Diocese de Propriá, tombada pelo Governo do Estado, Decreto nº 6.127, de 06 de janeiro de 1984, localizada na Ilha de São Pedro.
Em 1712 à 1716, informações do Frei Martin de Nantes, os missionários começaram a construir conventos destinados a preservar as missões católicas dos povos indígenas.
Iniciando nosso breve histórico sobre a Luta do Povo Xokó, em 1724, a população indígena Xokó eram 320 índios, já em 1758 esse número foi reduzido a 250 Xokó. Em 1802 tivemos informações que no sertão pernambucano haviam um pequeno grupo de índio Xokó, fato esse que não são confirmados. Em 1821 foi criado a freguesia de São Pedro, com isso um sacerdote conhecido como Gaspar Farias Bulcão, foi nomeado para cuidar da aldeia dos índios Xokó. 1838 o escritor George Gardinen, visita a Ilha de São Pedro e descreve-a como um retângulo. Já em 1849, Frei Cândido de Taggia, afirmava que os índios Xokó apenas trabalhava, mas não tinha lucro em nada, devido a cegueira etnocêntrica do homem dito civilizado.
Em 1859, D. Pedro II em sua viagem pelo Rio São Francisco, saindo da cidade histórica de Penedo, tinha como objetivo visitar a cachoeira de Paulo Afonso na Bahia, quando na oportunidade, passando em frente a Ilha de São Pedro, o barco que conduzia o imperador faltou vento, com isso, ele e sua comitiva encostaram em nossa aldeia ficando alojado durante três dias. Foi naquele momento que o povo indígena Xokó pediu ao senhor rei que delimitasse o território indígena das fazendas em volta. O imperador atendeu e mandou delimitar e demarcar a área em questão a favor da comunidade indígena Xokó, por sua vez, o Presidente da Província em Sergipe, Sr. Amâncio João Pereira de Andrade, ao saber da demarcação da reserva indígena, uma área excelente para criação do rebanho bovino, fez uma declaração que dizia o seguinte: na aldeia não há se quer uma casa, os índios Xokó eram povos miseráveis. 1870, o Presidente da Província de Sergipe, Sr. Francisco José Cardoso Júnior, faz referencia aos índios Xokó, afirmando que os mesmos são primitivos, que possuem um légua de terra e que ainda falam a língua NEENHATHU, com o passar do tempo a língua é proibida de ser falada principalmente com as chegadas dos missionários italianos, isso ocorreu no ano de 1849, entre os missionários tão badalado conhecido na região, o frei Doroteu de Loreto. Segundo comentários ele prestou grande assistência espiritual a comunidade indígena Xokó, naquele mesmo ano o coronel João Fernandes da Silva Tavares, proprietário da fazenda Araticum assume a direção geral dos índios em Sergipe. Já em 1874, com ordem para demarcar e delimitar as terras indígenas e exercer vigilância entre as relações dos homens brancos e os índios, bem como preservar a missão católica nas aldeias. Nesta luta heróica do povo indígena Xokó, nenhuma autoridade deste Estado nada fez em defesa dos direitos de ir e vir do nosso povo. Os jornais da época Gazeta de Aracaju, em 07 de outubro de 1882, apóia a família Tavares, já o jornal Democrata de Sergipe em 21 de outubro do mesmo ano e a locomotiva de Piranhas apóia o coronel Gouveia Lima. 1888 em 14 de fevereiro foi realizada uma sessão na Câmara Municipal de Porto de Folha encaminha ofício ao Presidente da Província de Sergipe, Sr. Olímpio Manoel dos Santos Vidal solicitando do mesmo que seja entregue ao município de Porto da Folha as terras pertencentes aos índios Xokó, alegando que foi extinto o aldeiamento conforme a Lei Imperial nº 3348 de 20 de outubro de 1887. Em outra sessão realizada em 06 de março de 1888, presente nesta seção os seguintes vereadores: Francisco Alves Campos, Francisco Antônio de Oliveira, Capitão Felix Moreira de Souza Feitosa, Felix de Souza Lima, Alferes Francisco Alves de Sà e Miguel Alves Feitosa, nesta data a Câmara Municipal de Porto da Folha, resolve por sua livre vontade, por em arrematação todo o território indígena Xokó entregando aos senhores coronel Clementino Fernandes da Silva Tavares, capitão Belarmínio Fernandes da Silva Tavares, capitão José Antonio de Souza, pantaleão José da Silva Oliveira e Francisco Alves de Lima. Já no dia 07 de março 1888, a Câmara de Vereadores de Porto da Folha beneficia o Coronel Antônio Alves de Gouveia Lima que requer admissão dos lotes que não foram arrematados, sendo assim o território indígena na concepção da Câmara de Vereadores passam a ser dos coronéis e amigos, coube a Câmara apenas se responsabilizar para providenciar a lavratura de todos os contratos assinados e escriturados em livros especiais, tendo como validade dez anos, ficando proibido a venda, troca ou qualquer outro tipo de alienação só com o consentimento do Conselho Municipal. As datas de 06 e 07 de março de 1888, não faz referencia aos dois lotes restantes.  Dessa forma, aumenta a odisséia do povo indígena Xokó que reclamam, gritam, protestam e não são escutados por ninguém. Desta vez o Governo da Província de Sergipe se torna cegas e mudas, alguns índios Xokó, viajam ao Rio de Janeiro onde vão pedir proteção ao Ministro Antônio Prado da Agricultura, Comércio e Obras Públicas que enviam ofícios em 20 de agosto de 1888 ao Presidente da Província, Sr. Francisco de Paula P. Pimenta informando que os índios: Pacífico de Barros, Genuíno Serafim, Manoel Esteve dos Santos e Lourenço Maurilho que foram reclamar o que ocorreu em seus territórios. O ministro solicita providencias que possam proteger a comunidade indígena Xokó, mas nada foi feito. Já em 1890 os índios Xokó Francisco Sabino Pires, Francisco de Matias de Souza e Antonio Venancio Ribeiro voltam a bater à porta do Governo Central no Rio de Janeiro, Sr. Demétrio Nunes Ferreira, que comunica em 17 de janeiro de 1890, ao Presidente da Província desta visita como sempre cai no esquecimento novamente a questão indígena. Em 01 de março de 1895, o coronel João Fernandes de Britto, aparece como intendente de Porto da Folha, com isso torna-se em 22 de novembro de 1897, na qualidade de foreiro dos 05 lotes dos 08 que estava dividida a área aforada. Em 1917, os índios Xokó novamente voltam a Rio de Janeiro, sendo eles: Inocêncio Pires, Francisco Matias de Souza e Manoel Francisco da Silva e mais uma vez não foram atendidos pelas autoridades governamentais. Em 1930, no governo do Sr. Maynard Gomes outras tentativas foram frustradas por sua vez o Prefeito de Porto da Folha o Sr. Pedro Xavier de Melo, encaminha mensagem a Câmara de Vereadores, pedindo em 25 de outubro de 1963 a autorização para vender as fazendas: Belém, Maria Preta e Malhada do Imbuzeiro. O Governador João de Seixas Dória por ação ou omissão conivente com essa agressão aos índios Xokó, que tem a posse imemorial das terras e goza antes mesmos da Constituição Federal “art. 129” de Proteção Possessória, Decreto nº21235 de 02 de abril de 1982, asseguram aos estados o domínio dos terrenos marginais e acrescido dos rios navegáveis que ocorrem em seu território, a Constituição de 1937, art. 154 e a Constituição de 1946, art. 216, não contrariam os direitos dos povos indígenas. No mesmo dia da mensagem do prefeito em 25 de outubro de 1963, Câmara Municipal de Vereadores de Porto da Folha, se reúnem às 09 horas sobre a Presidência de José Pereira, estavam presentes os vereadores Manoel Alcino dos Santos, José Batista da Silva, Raimundo José Cardoso e Francisco Alves Lima. Analisaram o projeto Lei nº10 do Executivo Municipal, com isso foi marcada uma sessão Extraordinária para as 14 horas do mesmo dia tendo em vista não houve acordo entre os mesmos. Quando discutiram pela primeira vez o projeto. Uma Terceira sessão Extraordinária foi marcada para as 16 horas e finalmente as 17 horas foi aprovado por unanimidade o projeto do Executivo o que é mais grave em tudo isso, até hoje ninguém sabe onde está a mensagem do prefeito. Em 1964 outra vez lideranças indígenas Xokó, vão reclamar e pedir ao Senhor Presidente da República, providencias urgentes quanto a posse da Ilha de São Pedro em Porto da Folha, mas uma vez, não fomos atendidos.
Seguindo este breve histórico sobre os Xokó da Ilha de São Pedro, em março de 1978, eram 22 famílias morando na Caiçara tendo como fonte de sobrevivência a produção da cerâmica, pesca e o cultivo do arroz, do milho, do feijão e etc. Naquela época a família Britto de Propriá contrariando as vontades de 129 pessoas, proíbem do trabalho do cultivo da lavoura acima citado, bem como da produção da cerâmica e pesca, mesmo com o ato proibitório, as 22 famílias se reúnem e começam a discutir o futuro do seu povo, mesmo sendo sabedor desta proibição, o remanescentes Xokó decidem continuar trabalhando como se nada estivesse acontecendo. Plantaram, mas não colheram, na época da colheita, ou seja, agosto a dezembro, a família Britto colocavam o gado e destruíram em sua totalidade, tudo que tinha sido plantado.
 Em 28 de outubro de 1978, a Diocese de Propriá, realiza a primeira Romaria em Comemoração aos Cem Anos da Morte do Missionário Italiano Frei Doroteo de Loreto. 12 de setembro do mesmo ano, um pequeno grupo de cinco pessoas, vão a cidade de Porto da Folha para comprar 16 bolas de arame farpado e 16 quilos de grampos. No período de 13 a 16 de setembro foi cercado a Ilha de São Pedro com apoio da Diocese de Propriá na pessoa do bispo Dom José Brandão de Castro, Paróquia de Porto da Folha na pessoa de frei Enoque, Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Porto da Folha na pessoa do presidente Manoel Oliveira, no dia seguinte, após o cercamento, ou seja, dia 17 um sábado por volta das nove horas da manhã chegava um fusca na barra com dois homens dizendo serem jornalistas da Bahia e que estavam aqui a convite do então Bispo de Propriá, Dom José Brandão de Castro, sendo assim conduziram os dois cidadãos até a Ilha de São Pedro, onde fotografaram a Igreja, ouviram do povo Xokó parte da sua história e oque os levaram a tomar a decisão de cercar a ilha. Quando eles estavam indo embora é que descobriram que não se tratavam de jornalistas nenhum, eram mensageiros da família Britto de Propriá. 09 de setembro de 1979 as 22 famílias da Caiçara e mais 04 que moravam no Belém foram expulsas pela família Britto, ao chegar na Ilha de São Pedro naquele ano encontraram apenas a igreja, as ruínas de um convento o cemitério, uma pequena casa de taipa e os pés de tamarindo, juazeiro, quixabeira, que serviram  ao longo de dois anos como casas. Outubro de 1979, Cimi (Conselho Indigenistas Missionário) realiza na Ilha de São Pedro a 13ª Assembléia dos Povos Indígenas do Nordeste com a participação das aldeias Tucano do Amazonas, Xavante Itapirapé de Mato Grosso, 07 de dezembro de 1979, o então Governador do Estado de Sergipe, Sr. Augusto Franco, desapropria a Ilha de São Pedro, pagando na época dois milhões e quatrocentos mil cruzeiros, a família Britto de Propriá, 08 de dezembro, frei Enoque convida o povo indígena Xokó, à participar da festa da padroeira de Porto da Folha, Festa da Padroeira Nossa Senhora da Conceição e juntos celebrarmos a nossa vitória naquela cidade. Outubro de 1982, a família Britto de Propriá vende a terra Caiçara ao fazendeiro Jorge de Medeiros Pacheco com recursos oriundos do Banco do Nordeste do Brasil. 1984, era exatamente 27 de junho quando no Palácio Olímpio Campos, o então Governador de Sergipe, o Senhor João Alves Filho, recebe naquela tarde o Presidente da Funai, o Sr. Jurandi Marcos da Fonseca, Sr. Leonardo Reis Delegado da Funai para região nordeste, Prefeito de Porto da Folha, Sr. Antônio de Caio Feitosa e uma pequena comissão do povo Xokó, Paulo Acássio, Damião, Raimundo, Manoel de Lulu e  Apolônio Xokó, naquela solenidade foi passado do Estado para União e da União para a Funai a documentação da Ilha de São Pedro. Em 1985, em uma grande assembléia realizada na aldeia Xokó, ficou definido que o Cacique Xokó teria uma missão de certa forma espinhosa, ir à Brasília com o objetivo de discutir junto a Presidência da Funai para trazer a equipe técnica formada de: um antropólogo, um advogado, um engenheiro, um técnico para proceder com o processo de demarcação da terra Caiçara. Ao chegar na aldeia a equipe fez uma reunião com a liderança e a comunidade onde comunicou que estavam aqui para proceder com o processo demarcatório da área indígena Caiçara. Os fazendeiros foram comunicados deste trabalho e no dia seguinte começou o processo de delimitação e demarcação que durou apenas 04 dias, foi quando os fazendeiros comunicaram ao Juiz da Comarca de Porto da Folha, o Sr. Francisco Melo de Novaes e o Ilustre Juiz suspende os trabalhos técnicos da Funai com uma liminar dos fazendeiros. Já em 1986 o povo Xokó através do seu Cacique traz pela segunda vez a equipe técnica que em uma grande reunião na cidade de Pão de Açúcar, entre Funai e Fazendeiros, o senhor Jorge Pacheco ao informar a Funai que tinha 200 homens fortemente armados de espingardas calibre 12, com ordens expressas para matar que entrasse na Caiçara a Funai de Pão de Açúcar retorna à Aracaju e de Aracaju à Brasília, deixando a comunidade indígena Xokó, sem nenhuma solução.





 






Em 31 de agosto de 1987 o povo indígena Xokó, decide ocupar a Fazenda Caiçara, não foram bem sucedidos devido o fracasso mais uma vez da Funai. O Sr. Francisco Melo de Novaes, que atendendo mais uma vez pedido dos fazendeiros solicita do Comando Geral da Polícia Militar do Estado de Sergipe que fossem tomadas medidas enérgicas contra o povo indígena Xokó. Sendo assim, expulsos naquela tarde do dia 01 de setembro de 1987, como se fossem bandidos e marginais, no dia seguinte um pequeno grupo do povo indígena Xokó acampa na Sede da Funai em Maceió/Al, com o objetivo de pressionar o órgão “tutor” para  resolver nossos problemas.
Em 28 de outubro de 1887 a Procuradoria Geral da República em Sergipe através do Procurador Geral, o Sr. Evaldo Fernandes Campos, recebe pela primeira vez as liderança indígenas do povo Xokó, naquela oportunidade o procurador foi informado de toda a situação em que se encontrava a comunidade indígena Xokó. Após este relato o procurador informou que ia estudar a situação. Em 18 de janeiro de 1988, o Sr. Evaldo Fernandes Campos, convida a liderança indígena Xokó a comparecer em seu Gabinete e naquela manhã ele informava que a tarde estava dando entrada em uma Ação de Reintegração de Posse na 3ª Vara da Justiça Federal de Sergipe, movida pela Procuradoria Geral da República em favor da União. Nesta Ação ele solicita do Juiz Federal que a Funai órgão “tutor do índio brasileiro” fosse intimada, através de uma Carta Precatória para as conclusões do Processo Demarcatório da Área Indígena Caiçara. Em março do mesmo ano a equipe técnica da Funai, chega a Ilha de São Pedro acompanhada de oito agentes da polícia federal, os quais deram total segurança e garantia dos trabalhos. Em 24 de dezembro de 1991, o então Presidente da República, Senhor Fernando Collor de Melo, atendendo apelo do povo indígena Xokó, através do Decreto nº401/91, reconhece e decreta a área indígena Caiçara ocupada permanentemente pelos bravos guerreiros Xokó, homologada e registrada em Cartório de Ofício.
De 10 à 12 de maio 1993, o povo indígena Xokó realiza a primeira festa na Caiçara onde convida os amigos para celebrar esta grande vitória. Em 22 e 23 de maio o povo Xokó toma posse definitivamente da área indígena Caiçara, esta festa foi única e exclusiva para a comunidade celebra e festejar todos esses anos de lutas. Caminhada vitoriosa.




Apolônio Xokó
Marcos Paulo Carvalho Lima










Localiza-se a 220 km de Aracaju, com uma população aproximada de 310 indígenas e 91 famílias .






Na verdade a comunidade foi identificada pelos jesuítas no século XVI, mas acabou sendo expulsa de lá. A comunidade voltou e fundou sua aldeia retomando a ilha de São Pedro em 1979, mas apenas meado dos anos 90, a FUNAI homologou a Caiçara, anexando a Ilha de São Pedro, constituindo assim a terra indígena da etnia Xoko.

Na época do descobrimento do Brasil as terras de Sergipe eram habitadas por várias tribos indígenas. Além dos Tupinambás e Caetés nas terras sergipanas existiam cerca de 30 aldeias, pertencentes ao grupo Tupi.
Atualmente a única tribo existente é a Xoko, que vive na ilha de São Pedro, no município de Porto da Folha.
O desaparecimento das demais tribos sergipanas se deu no século XIX, devido à política indianista do Império do Brasil que publicou a Lei das Terras em 1850, declarando as Terras como de Domínio Público. Nesta fase foram extintos muitos aldeamentos nas províncias de Alagoas, Sergipe, Pernambuco e outras regiões, por critérios raciais e discriminatórios, só para se apossarem das terras indígenas.
Na verdade a comunidade Xoko foi identificada na ilha de São Pedro pelos jesuítas na no sec XVI, mas acabou sendo expulsa de lá. A comunidade voltou e fundou sua aldeia retomando a ilha de São Pedro em 1979, mas apenas meado dos anos 90, a FUNAI homologou a Caiçara, anexando a Ilha de São Pedro, constituindo assim a terra indígena da etnia Xoko.





Esta comunidade (assim como as outras comunidades indígenas) foi submetida desde a colonização a severas agressões culturais e tomada de suas posses (esbulhos). Sofrendo destas atrocidades desde a época do império, a tribo Xoko terminou experimentando um grave colapso cultural, tendo sua religiosidade ancestral submetida a um grave esvaziamento, encontrando aí o catolicismo terreno fértil para a imposição da nova doutrina (as famosas Missões Católicas).
Ritual do Ouricurí, como o vivenciado por outras etnias, quase desapareceu, apesar de atualmente estar passando por um processo de revitalização.

A prática da Torédança ritual associada à prática do Ouricurí que além da sua ritualidade representa o aspecto social e lúdico caracterizado por seus trajes típicos e pinturas corporais especificas de cada etnia, conseguiu ser preservada, muito embora a comunidade tenha incorporado outros folguedos afros (principalmente o samba de coco), devido à conivência com escravos (convivência esta que causou sua miscigenação natural).



No século XVI os jesuítas identificaram e existência de índios na Ilha de São Pedro. A tomada da terra e a imposição da cultura católica faz com que os Xokos se dispersassem. Um processo de reconquista de suas terras, ocorre em meados 1979, retomando a Ilha de São Pedro e ali instalando a sua aldeia, e sempre lutando por suas terras e pela Caiçara (gleba que se situa às margens do São Francisco no estado de Sergipe).
Finalmente nos meado dos anos 90, a FUNAI homologou a Caiçara, anexando a Ilha de São Pedro, constituindo assim a terra indígena da etnia Xocó. O decreto Nº 401/91 de 23.12.91, autorizou a demarcação da Caiçara em 3.600 ha. que somadas as terras já indenizadas, junto as da Ilha de São Pedro totalizam 4.316 ha. Não havendo na atualidade pendências fundiária.
Infelizmente, pelo fato de concentrarem suas produções agrícolas em 10% das terras, já que o local é uma caatinga, existem invasores que realizam caça e pesca predatória, colocando espécimes em risco de extinção.










Colaboraçãoda de Fotos e Textos: 

India Xoko Helena Lima
Apolônio Xokó
Marcos Paulo Carvalho Lima
fontes: 


https://pt.wikiversity.org/wiki/Wikinativa/Xocó


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O som do crescimento Afonso Augusto

O som do crescimento

Um passeio pelo verdadeiro mundo sonoro de Afonso Augusto " coisas dos dias de Rock in Roll

Poeta , cantor , compositor, produtor cultural e matem um programa de radio cultural na cidade de Lagarto-SE.

A musica de Afonso faz você lembra de vários mundos musicais a musica atrai ao ouvidos vários estilos, uma coisa é certa quando você começa a ouvir não quer parar.




   AMORBIDO - 2017


“composto por canções de amores não correspondidos, canções eróticas, canções/cartas não entregues, exceto as duas últimas faixas que fogem do tema e entram num existencialismo poético e onírico”.

De acordo com cantor Afonso Augusto, ‘o disco passou por excelente trabalho gráfico e fotografias, e nas canções, o que há de melhor de mim neste momento’.


























Com sangue, lágrimas e ouro, poeta nascido de amores, de experiências e sensação, habitante de estações, viciado em flores e em amores, mistérios e obviedases formam o extraordinário que me inspiram .

Filho da Bahia, criado em esplêndido berço sergipano.

Três obras deixadas neste plano, primeiro um livro de poesias ainda da obsolescência, segundo, um disco sensorial e instintivo, instintos.


Videos:

Afonso Augustto - A música à sua volta (Clipe Oficial)




Meu Sonho Bom - Afonso Augusto



Dias Íntimos - Afonso Augusto



Afonso Augusto - Instintos 2014 ( EP Completo)



O trabalho traz letras densas, poemas ousados, cantados de maneira doce e amarga. O disco também tem uma pegada roqueira que remete as influências dos clássicos do rock nacional e britânico.



A literatura antecedeu a musica, e a participação em concursos de poesia nos tempos de escola, foram o caminho para entrar no meio musical. Apesar de ter ligação com a música gospel na infância, foi a música ‘Maluco Beleza’ de Raul Seixas, ouvida na casa de um vizinho, que fez Afonso despertar o interesse por um universo totalmente diferente do que já tinha visto. ‘Fiz amizade com um cara que tinha um acervo enorme de discos e CDs, e ele me emprestava, e ele gostava de me ver entusiasmado com aquela descoberta. Eram meus primeiros contatos com o Punk Rock, The Clash, Ramones, Sex Pistols etc. Era um adolescente e estava delirando com aquelas descobertas’, conta o cantor.

O estilo Heavy metal foi paixão passageira. As inspirações vieram mesmo com o os berros de Kurt Cobain e a poesia de Jim Morrison, ambos astros do rock americano. Os sons nacionais, como Ira, Ultraje a Rigor e Barão Vermelho, também o influenciaram. Foi nesta fase que Afonso chamou o amigo Duilio, pra montar uma banda, descobrindo o Folk, gênero que mistura música folclórica e rock.

O EP Instintos tem canções feitas há meses e outras há dez anos. Não há uma relação direta entre as faixas, o que casa com a variedade de sentimentos, e da não relação de temporalidade e da ausência de relação sonora, tanto é que as canções foram gravadas em dois estúdios diferentes, e por músicos distintos, razões suficientes para caracterizar o álbum como natural e cru, caracterização dada pelo compositor. “Segundo” é a única faixa que não é da autoria de Afonso. A música se origina de uma poesia do poeta e amigo Fabio Ribeiro, da cidade de Tobias Barreto- SE.

Ao lado da banda D’arma e de outros músicos parceiros como Alex Matos ( Guitarra), Thiago ( Baixo) e Jefferson ( Bateria), Afonso é uma aposta para o rock sergipano em 2014, e tem tudo para tornar íntimo do grande público os seus instintos.


Em Aracaju, adquira o disco físico na Casa do artista e em Lagarto no Duetto Café ou pelo e-mail: afonsoaugustto@gmail.com

fonte: 

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 http://www.tratore.com.br/um_cd.php?id=10458



 https://open.spotify.com/artist/5T8gsch4otJXLpC6jFBHTa


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Tobias Barreto o homem e sua história


Tobias Barreto










Tobias Barreto (Tobias Barreto de Meneses) nasceu na vila sergipana de Campos, a 7 de junho de 1839 e faleceu no Recife, em 27 de junho de 1889, sendo filho de Pedro Barreto de Meneses, escrivão de órfãos e ausentes da localidade. É o patrono da cadeira nº 38 da Academia Brasileira de Letras, por escolha do fundador, seu discípulo e amigo Sílvio Romero.





Biografia 
Tobias Barreto (Tobias Barreto de Meneses) nasceu na vila sergipana de Campos, a 7 de junho de 1839 e faleceu no Recife, em 27 de junho de 1889, sendo filho de Pedro Barreto de Meneses, escrivão de órfãos e ausentes da localidade. É o patrono da cadeira nº 38 da Academia Brasileira de Letras, por escolha do fundador, seu discípulo e amigo Sílvio Romero.
Aprendeu as primeiras letras com o professor Manuel Joaquim de Oliveira Campos. Estudou Latim com o padre Domingos Quirino, dedicando-se com tal aproveitamento que, em breve, iria ensinar a matéria em Itabaiana.
Em 1861 seguiu para a Bahia com a intenção de frequentar um seminário mas, sem vocação firme, desistiu de imediato. Sem ter prestado exames preparatórios voltou à sua vila donde saira com destino a Pernambuco. Entre 1854 e 1865 o jovem Tobias, para sobreviver, deu aulas particulares de diversas matérias. Na ocasião prestou concurso para a cadeira de Latim no Ginásio Pernambucano, sem conseguir, contudo, a desejada nomeação.
Em 1867 disputou a vaga de Filosofia no referido estabelecimento. Venceu o prélio em primeiro lugar, mas é preterido mais uma vez por outro candidato. Para ocupar o tempo entrega-se com afinco à leitura dos evolucionistas estrangeiros, sobretudo o alemão Ernest Haeckel que se tornaria um dos mais famosos cientistas da época com seus livros Os enigmas do Universo e As maravilhas da Vida.
Poeta medíocre, na oratória Tobias se revelava um mestre, qualquer que fosse o tema escolhido para debate. O estudo da Filosofia empolgava o sergipano que nos jornais universitários publicou “Tomás de Aquino", “Teologia e Teodiceia não são ciências", "Jules Simon", etc. Ainda antes de concluir o curso de Direito casou-se com a filha de um coronel do interior, proprietário de engenhos no município de Escada.
Eleito para a Assembléia Provincial não conseguiu progredir na política local. Dedicou vários anos a aprofundar-se no estudo do Alemão, para poder ler no original alguns dos ensaístas germânicos, à frente deles Ernest Haeckel e Ludwig Büchner. Mais tarde sairiam de sua pena os Estudos alemães.
A residência em Escada durou cerca de dez anos. Ao voltar ao Recife, aos escassos proventos que recebia juntaram-se os problemas de saúde que acabaram por impedi-lo de sair de casa. Tentou uma viagem à Europa para restabelecer-se fisicamente. Faltavam-lhe os recursos financeiros para isso. No Recife abriram-se subscrições para ajudá-lo a custear-lhe as despesas. Em 1889 estava praticamente desesperado. Uma semana antes de morrer enviou uma carta a Sílvio Romero solicitando, angustiosamente, que lhe enviasse o dinheiro das contribuições que haviam sido feitas até 19 de junho daquele ano. Dias mais tarde falecia, em 27 de junho de 1889, hospedado na casa de um amigo.




Cadeira: 
38
Posição: 
Patrono
Data de nascimento: 
7 de junho de 1839
Naturalidade: 
Tobias Barreto - SE
Brasil
Data de falecimento: 
27 de junho de 1889
Local de falecimento: 
Recife, PE
;



Bibliografia 

Glosa, 1864.
Amar, 1866.
O Gênio da Humanidade, 1866.
A escravidão, 1868.
Que mimo, 1874.
Ensaios e estudos de filosofia e crítica, 1875.
Brasilien, wie es ist, 1876.
Ensaio de pré-história da literatura alemã, filosofia e crítica, estudos alemães, 1879.
Dias e noites, 1881.
Menores e loucos, 1884.
Discursos, 1887.
Polêmicas, 1901.
Menores e loucos, 1926




 




DEVE A METAFÍSICA SER CONSIDERADA MORTA?
 I
A questão de saber se a metafísica deva ou não ser considerada como exausta e morta, escapa, sem dúvida, se não completamente ao programa, pelo menos aos limites desta pequena folha.
Pedimos, todavia, respeitosamente, ao público a permissão de apresentá-la ao círculo de nossos leitores e contribuir com algum esforço para a sua solução.
Antes de mais nada, merece reparo como os espíritos em nosso país se portam no que diz respeito a semelhante indagação. O que melhor e mais acertado se pode afirmar no assunto é que o ponto de vista filosófico do nosso pretenso mundo científico é caduco e sem o mínimo préstimo. Não resta a mais leve dúvida que até as estrelas de primeira grandeza, os mais afamados pensadores e escritores da terra se distinguem pela sua fé implícita no velho Deus da teologia e da Igreja. Nada sabem de sério do desenvolvimento da vida intelectual do tempo presente e ousam falar de tudo, de filosofia, de religião, de ciência, e do que falam fazem grande alarde.
Uma coisa, porém, urge observar e é que com essa enorme ignorância correm emparelhados o orgulho e o desprezo pelos mais notáveis feitos científicos estrangeiros, notadamente alemães.
É isto suficiente para caracterizar, de um lado a deplorável condição em que nos achamos, e por outro, justificar o interesse que tomamos em responder à pergunta proposta. Se em nossos dias nenhum homem verdadeiramente culto deve ignorar que o dogmatismo da metafísica moderna foi abalado por Hume, cuja implacável crítica coube a Kant concluir em mais largas proporções e com mais considerável profundeza, há de causar admiração e grande espanto que tão triviais verdades ainda despertam entre nós.
Certo, antes que Augusto Comte, o fundador do positivismo na França, expelisse o absoluto para a região das quimeras, já Hume havia derrocado o edifício metafísico (...) Foi, em verdade, a dúvida do genial filósofo escocês acerca da validade dos juízos sintéticos em geral, que veio a se tornar o estímulo e a fonte das profundas pesquisas de Kant; e este mesmo declarara, sem rebuço, que a crítica de Hume é que primeiro o despertara de seu sono dogmático. São, com efeito, profundamente penetrantes as fortes palavras, como que talhadas em mármore, com que o terrível céptico inglês fechou seu Ensaio sobre o Espírito Humano. Ele diz: - “Quando, convictos da doutrina aqui ensinada, penetramos numa biblioteca, que destruição devemos causar? Tomemos um livro de teologia ou de metafísica e perguntemos: contém investigações sobre grandezas e números? Não. Contém o resultado de experiências acerca de fatos e realidades existentes? Não. Jogue-se então o livro ao fogo, porque não poderá conter nada além de sofisticarias e mistificações”. - Profunda e belamente dito.
Desde o momento em que semelhantes verdades foram impunemente pronunciadas, a metafísica deixou de poder ser considerada como pertencente ao grupo das ciências, quer quando fala do supersensível ou da essência das coisas, quer quando se pronuncia racionalmente sobre a substância da alma, a origem do mundo, a existência e os atributos da Divindade.
Toda a filosofia até o aparecimento de Kant, como ensina Schopenhauer, não passou de um sonho estéril de falsidade e servilismo intelectual, do qual os novos tempos só se libertaram pelo grado partido da Crítica da Razão Pura.
E cremos não estar em erro, proferindo a crença de que não teria Kant atingido o seu desenvolvimento, se não fora o influxo de Hume.
Distinguem-se no período pré-crítico do sistema kantesco dois estádios: no primeiro, esteve o grande filósofo sob o influxo da filosofia escolástica alemã; no segundo, sob a influência céptica. Foram principalmente Wolf, Locke e Hume que indicaram os marcos capitais por onde Kant teve de passar antes de descobrir os seus próprios.
Destarte, se reuniram nele todas as energias e esforços de seus predecessores. A parte de Hume tinha de ser a mais considerável e duradoura. Somente depois do genial escocês poderia vir um Kant: a estrada estava aberta, mas só ele a poderia verdadeiramente alargar.
 II
A máxima de que as investigações metafísicas são estéreis em resultados e de que é perda completa de tempo ocupar o espírito com elas, está em favor entre numerosas pessoas que se gabam de possuir o senso comum, e nós ouvimo-la às vezes enunciar por autoridades eminentes, como se sua conseqüência lógica, a supressão desse gênero de estudos, tivesse a força de uma obrigação moral.
Neste caso, contudo, com noutros análogos, aqueles que promulgam as leis parecem esquecer que um legislador prudente deve tomar em consideração não só se o que ordena é coisa que se deva desejar, como ainda se é possível que se lhe obedeça. Porquanto, se a última questão é resolvida negativamente, não valeria certamente a pena agitar a primeira.
Tal é, efetivamente, a grande força da resposta a dar a todos aqueles que bem quiseram fazer da metafísica um artigo de puro contrabando espiritual. Que seja para desejar, ou não, o impor um direito proibitivo sobre as especulações filosóficas, é absolutamente impossível impedir-lhes a importação no espírito humano. E é assaz curioso notar que aqueles que proclamam com maiores brados abster-se dessas mercadorias são, ao mesmo tempo e em grande escala, consumidores inconscientes de uma ou de outra de suas inúmeras falsificações ou imitações e arremedos. Com a boca cheia de broa grosseira, terrivelmente indigesta, tão de seu gosto, prorrompem em invectivas contra o pão comum. Em verdade, o tentame de alimentar a inteligência humana com um regime estreme de metafísica é pouco mais ou menos tão feliz quanto o de certos pios orientais que pretendiam sustentar o corpo sem destruir vida alguma. Todos conhecem a anedota do micrógrafo sem contemplação que destruiu a paz de espírito de um desses doces fanáticos, mostrando-lhe os animais que pululam numa gota de água com a qual, na cândida inocência de sua alma, ele matava a sede; e o adorador confiante do senso comum pode expor-se a receber um abalo do mesmo gênero quando o vidro de aumento da lógica rigorosa revela os germes, se não as formas já adultas, de postulados essencialmente, fatalmente metafísicos que fervilham entre as ideias mais positivas e até as mais terra-a-terra.
Aconselha-se aí de ordinário ao estudante sério, para o arrancar aos fogos fátuos que brotam dos pântanos da literatura e da teologia, que se refugie no terreno firme das ciências físicas.
Mas o peixe legendário que pulou da frigideira ao fogo, não era mais tolamente aconselhado do que o homem que busca um santuário contra a perseguição metafísica entre as paredes do observatório ou do laboratório. Diz-se que a metafísica deve seu nome ao fato de que, nas obras de Aristóteles, tratam-se das questões da filosofia pura imediatamente depois das da física. Se isto é verdade, esta coincidência simboliza com felicidade as relações essenciais das coisas, porquanto a especulação metafísica segue de tão perto a teoria física quanto os negros cuidados seguem seu cavaleiro.
Basta mencionar as concepções fundamentais e realmente indispensáveis da filosofia natural que tratam dos átomos e das forças, ou as da energia potencial, ou as antinomias de um vácuo ou não vácuo, para lembrar o fundo metafísico da física e da química, ao passo que, no tocante às ciências biológicas, o caso ainda é mais grave. Que é um indivíduo entre as plantas e os animais inferiores? Os gêneros e as espécies são realidades ou abstrações? Há uma coisa que se chama força vital? Ou este nome denota apenas uma relíquia de velho fetichismo metafísico? A teoria das causas finais é legítima ou ilegítima? Eis aí alguns dos assuntos metafísicos sugeridos pelo mais elementar estudo dos fatos biológicos.
Não é tudo: pode-se dizer, sem medo de errar, que as raízes de cada sistema de metafísica repousam no fundo dos fatos da fisiologia. Ninguém pode contestar que os órgãos e as funções da sensação sejam tanto da esfera do fisiologista quanto o são os órgãos e funções do movimento, ou os da digestão; e, todavia, é impossível adquirir até o conhecimento dos rudimentos da fisiologia da sensação sem ser levado diretamente a um dos mais fundamentais de todos os problemas metafísicos. Com efeito, as operações sensitivas têm sido desde tempos imemoriais o campo de batalha dos filósofos.
(Ensaios e estudos de Filosofia e Crítica)


RELATIVIDADE DE TODO CONHECIMENTO
A primeira proposição do programa pretende estabelecer como verdade a relatividade dos conhecimentos humanos.
Parece à primeira vista que nenhuma dúvida se pode levantar sobre tal produto. Desacreditada a pretensiosa ontologia metafísica e quase reduzida a proporções de velha mitologia, que tem perdido o seu primitivo encanto poético, é explicável que a ideia da relatividade de todo o saber humano viesse substituir o antigo prejuízo dos princípios absolutos e absolutas verdades.
Mas é mister que nos entendamos e tratemos logo de prevenir-nos contra um grande erro, que pode resultar de uma má interpretação do programa.
Ele começa por dizer que os conhecimentos humanos são relativos. Se com isto quis apenas significar que os nossos conhecimentos estão na dependência de certas condições, sem cujo preenchimento eles não podem ser completos, e porque tais condições nunca serão perfeitamente preenchidas, também eles nunca estarão no caso de se chamarem perfeitos, se esta é a idéia visada pelo programa, nenhuma contestação.
Não é crível, porém, que a isto se quisesse restringir a proposição mencionada.
A ideia da relatividade de todo o saber não é uma ideia nova; pelo contrário é quase tão velha como a filosofia. Entretanto, neste século, e mesmo em nossos dias, ela parece ter tomado um caráter novo. Pelo menos é certo que filósofos notáveis não se têm dedignado de consumir, por amor dela, muito papel e muita tinta, posto que nenhum proveito sensível nos tenha advindo de semelhante gasto.
É na Inglaterra principalmente, que, nos últimos tempos, a teoria da relatividade do saber tem sido professada e discutida com particular predileção. Quem primeiro ali apresentou-a com uma certa insistência (refiro-me aos tempos atuais) foi Hamilton, que aliás não teve coragem de sustentá-la em todas as suas conseqüências.
Na obra de Stuart Mill sobre a filosofia de Hamilton há dois capítulos (II e III) consagrados à elucidação desta doutrina.
Sobretudo interessante é o capítulo II, porque nele vêm expostas concisa e claramente todas as diversas nuanças da teoria em questão.
Porém é de supor que este distinto pensador, a despeito de sua grande sagacidade, deixou despercebido um ponto essencial na afirmação da relatividade dos nossos conhecimentos.
Mill opina que essa relatividade consiste no fato de que nós só podemos conhecer as nossas próprias afecções e nossos estados íntimos. Por isso, para ele, os extremos relativistas são aqueles que afirmam que nós não só nada conhecemos dos nossos próprios estados, como também que nada mais temos, nada mais há a conhecer.
Mas isto envolve um engano. Com a relatividade do saber admite-se um elemento de inverdade, de imperfeita validade objetiva.
Afirmar que os nossos conhecimentos são relativos só tem sentido sob o pressuposto de que as coisas em si não são tais, quais são para nós, e que só podemo-las conhecer tais quais elas nos aparecem.
Negando-se esta distinção, todo o saber é decerto relativo a nós, mas esta relatividade não implica então nenhuma inverdade dos conhecimentos, nenhuma limitação da sua validade.
O saber seria então absolutamente verdadeiro. Mas quando se diz que os conhecimentos humanos são relativos, o que se quer afirmar é justamente o contrário daquilo, é que absolutamente verdadeiro não é o nosso saber.
Esta teoria da relatividade formou-se em oposição à consciência comum, e este ponto não deve ficar esquecido.
O homem, que não reflete, crê: 1º, que ele conhece as coisas exatamente como elas são em si; 2º, que estas coisas existem justamente como são conhecidas, independentes do conhecimento; são objetos em si, absolutos, sem relação a nós.
Foi a inconciliabilidade destas duas asserções que provocou os primeiros escrúpulos céticos.
Já na Grécia, Protágoras dissera que o homem é a medida de todas as coisas, das que são, como elas são, das que não são, como elas não são; e por este modo levou a doutrina da relatividade aos seus extremos limites.
Porém é de notar que quando assim se leva tão longe esta teoria, ela converte-se no seu contrário e dá aos nossos conhecimentos uma validade e verdade ilimitadas, que de todo se opõem nos fatos.
A tese de Protágoras implica necessariamente que os objetos cognoscíveis não se distinguem do conhecimento que temos deles, pois que a não ser assim, o sujeito cognoscente não poderia ser medida de tudo, se o conhecimento e seu objeto não são duas, mas uma só coisa, então não se pode mais falar de relatividade. Uma relação, se esta palavra tem um sentido, não é concebível sem duas coisas, entre as quais a relação exista, e sem relação, naturalmente, não é possível relatividade alguma.
Os relativistas modernos aproximam-se de Protágoras. Porém nós acabamos de ver onde para o protagorismo.
A doutrina da relatividade só tem senso racional, nas duas seguintes hipóteses: 1ª, que os objetos cognoscíveis são determinados pela própria natureza do sujeito cognoscente; 2ª, que eles, justamente por causa desta sua relatividade, não representam a verdadeira, absoluta essência da realidade.
Que se deve entender, quando se diz que os objetos cognoscíveis são relativos ao sujeito, estão em necessária relação com ele? Somente isto: que na essência dos mesmos objetos há alguma coisa que os prende ao sujeito, uma originária adaptação daqueles às leis deste.
A relatividade do saber encerra dois momentos, diz A. Spir: primeiramente, o conhecimento dos objetos, dados como coisas externas no espaço, só é valioso com relação ao ponto de vista da consciência comum, mas objetivamente, ou em si, inexato, não verdadeiro. Conforme a expressão de Kant, as coisas têm no espaço só uma realidade empírica, nenhuma realidade transcendental. Em segundo lugar, os objetos empíricos são simples fenômenos, não apresentam a realidade em sua essência originária, absoluta, porém na forma estranha da pluralidade da mudança e da antítese ou dualidade de sujeito e objeto de conhecimento.
E eis aí o que se pode dizer em nome da filosofia ainda que em ligeiros traços a respeito da afirmação que os nossos conhecimentos são relativos.
Entretanto, dou-me pressa em confessar que a questão da relatividade, assim concebida, e só é que regularmente deve sê-lo, não tem muito cabimento na ciência, de que nos ocupamos. Mal se descobre a ligação que possa haver entre esta tese e as demais que lhe sucedem no encadeamento lógico do sistema.
Para ter alguma razão de ser é mister considerá-la no sentido de limitação. Todos os nossos conhecimentos são limitados. E dois são estes limites, diz Dubois Reymond: um consiste em que nós não podemos saber o que é força e matéria; o outro em que não podemos saber, como dos átomos e seu movimento pode nascer uma sensação...



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filósofo, escritor e jurista brasileiro. Foi o líder do movimento intelectual, poético, crítico, filosófico e jurídico, conhecido como Escola de Recife ' Tobias Barreto o nome que deu origem a cidade surgiu em homenagem,'





Fontes: : Academia Brasileira de Letras e pesquisas no Google.